Violência na política

Ilustração de Alexandre Martins

“A virtude contemporânea chama-se tolerância.”

(José Arthur Gianotti)

Trata-se de um lugar comum dizer que vivemos um fla-flu político. A expressão, trazida do futebol, revela o clima de polarização em que vivemos, com a quase extinção da possibilidade de diálogo.

O que tem prevalecido neste momento é o maniqueísmo do debate político, caracterizado pelo uso de expressões que apenas revelam o primitivismo de quem as usa. Aquele que foi contra o impeachment, coloca em seus adversários a alcunha de fascista, reaça, golpista e — singular infantilidade — coxinha. Por sua vez, quem foi favorável ao impeachment, chama os demais de comunista, bolivariano, corrupto e — não menos infantil — petralha.

Maniqueísmo é um termo derivado da doutrina religiosa do profeta persa Mani, que viveu no século III, que separava a vida entre luz e treva. No sentido coloquial, maniqueísmo significa considerar o mundo dessa forma binária: luz e treva, bem e mal, sem a percepção de nuances, tonalidades, como se o mundo e, especialmente, as pessoas não fossem cromáticas, contraditórias, passíveis de divisões. No campo das ideias políticas, o maniqueísmo se revela ainda mais tolo, quando se sabe que todos os sistemas e ideias políticas possuem limitações importantes, a par de suas eventuais qualidades.

Além disso, o maniqueísmo revela uma grande dose de arrogância, pois a pessoa se considera dotado de superioridade que a leva a desprezar a posição política alheia. Há a ideia de que a sua posição é dogmaticamente superior e a outra pessoa, caso defenda posição diferente, o faz por falta de caráter ou inteligência. É desnecessário dizer que o maniqueísta sempre acha que ele está na luminescência e os demais na obscuridade.

Quando essa visão maniqueísta se exacerba abre-se espaço para o ódio, que descamba na violência.

Têm sido frequente atos de hostilidade a pessoas públicas, invariavelmente, filmados, publicados na internet e divulgados nas redes sociais, com claro regozijo do divulgador. A mais recente foi a agressão ao jornalista Caco Barcellos, da Rede Globo. A cena é daquelas que constrange qualquer pessoa civilizada. Caco foi impedido, naquele momento, de exercer sua profissão, expulso de um lugar público e agredido com arremessos de objetos, inclusive um cone de trânsito, e um chute, além das ofensas verbais.

Dá vontade de lembrar o que representa a trajetória profissional de Caco Barcellos para o jornalismo; dá vontade de falar do Rota 66, com o qual ele denunciou “a polícia que mata” e como sofreu com isso. Mas, se falasse algo nesse sentido, como fez um importante jornalista, alegando que Caco é “progressista de esquerda”, não estaria repudiando o ato em si.

Ora, caso fosse, por exemplo, contra o jornalista tido como o arauto da direita, autor do neologismo “petralha”, a ação seria legítima? Obviamente, não!

Já foram veiculados atos de hostilidade, com variados níveis de violência, praticados contra pessoas de ambos os lados desta sociedade dividida.

Da agressão de sindicalistas ao então governador Mário Covas, em 2000, às ofensas proferidas contra José Dirceu em um restaurante, no auge do mensalão, noticiado pela revista Piauí; dos insultos a José Genoíno, na eleição de 2012, aos proferidos contra Janaína Paschoal, no aeroporto; ou mesmo a agressão física a Cunha, no aeroporto, ou as ofensas dirigidas a Guido Mantega em um hospital, em 2015. E, por fim, a mais recente, mas que não será a última, contra Caco Barcellos. Todas essas agressões são deploráveis, independentemente do lado político do agredido ou da acusação que eventualmente exista contra ele.

Porque representam uma ofensa ao ser humano, e não uma crítica ao homem público, porque extrapolam os limites da crítica e inviabilizam completamente o debate das ideias, é que merecem o repúdio.

O ato de violência deve ser enjeitado pela violência em si, e não pelo alvo eleito.

Se há a pretensão de se construir um país plural, democrático, no qual seja possível a convivência pacífica entre pessoas com diversos pontos de vista, quem tiver um mínimo de consciência civilizatória, deve começar por repudiar todo e qualquer ato de hostilidade em razão da posição política de uma pessoa. E, se o apelo à consciência ética não for suficiente, fica a advertência de Josué Montello: “O estivador de ódios é também um penitente.”

 

Referências

“Maniqueísmo” — verbete in: Dicionário de Filosofia de Cambridge. Dirigido por Robert Audi (tradução João Paixão Netto; Edwino Aloysius Royer et al.) São Paulo: Paulus, 2006.

“Maniqueísmo” — verbete in: Dicionário de Filosofia / Nicola Abbagnano; tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bossi; revisão da tradução e tradução dos novos textos Ivone Castilho Benedetti — 5ª ed. — São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GIANOTTI, José Arthur. "Moralidade pública e moralidade privada. In: Ética. Organização Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 344.

MONTELLO, Josué. Diário da Manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 10.